Cartas quarentena #52


PAPAI É AUTORITÁRIO

A notícia é de hoje e está em todas as páginas da imprensa automobilística com a manchete:


RED BULL 'FULMINA' UMA DE SUAS GRANDES PROMESSAS POR UM COMENTÁRIO RACISTA



Juri Vips, um piloto estoniano de 21 anos (repito, 21 anos) que corre na F2, foi expulso da equipe por usar a palavra "negão" em uma live no Twitch.


Sem aprofundamentos e refletindo, lembrei imediatamente do trecho de um livro lido ontem, enquanto procuro entender o momento que vivemos.


Está escrito e transcrevo na íntegra um trecho que me custou dormir:


por: Paulo Torino


Na noite de 10 para 11 de maio de 1968, as ruas parisienses do Quartier Latin que rodeiam a Sorbonne se converteram em violento campo de batalha entre os estudantes e policiais: bloqueios, carros incendiados, quebras de vitrinas, calçamentos arrancados e atirados, feridos de ambas as partes... Foi a noite das barricadas. Os protestos estudantis haviam começado uma semana antes, em 2 de maio, partindo da Universidade de Nanterre nas cercanias de Paris.
Em 3 de maio, houve uns quinhentos manifestantes detidos. Depois desta noite, em todo o país de declararam greves nas quais participaram os operários das fábricas, os trabalhadores do transporte e os empregados público. Em 24 de maio, o general De Gaulle anuncia um referendo com vistas à renovação universitária, social e econômica do país, que finalmente não se levou a cabo. Em 30 de maio, De Gaulle dissolve o Parlamento e no ano seguinte renuncia à presidência da França”. (1. INTRODUÇÃO A FOUCAULT, Edgardo Castro, 2014 pgs, 76-78)

Aqueles dias não eram só dos franceses revoltados. Havia protestos no “ campus da Universidade de Berkeley em 1964, nos Estados Unidos. Tampouco as mutações da sociedade fransesa são fenômeno isolado”, o clima da época era o seguinte;
· Guerra do Vietnam;
· Movimentos revolucionários na América Latina;
· O Maoísmo;
· a legislação sobre a anticoncepção;
· a revolução da minissaia, etc...

Longe dali FOUCAULT volta de Túnis em junho de 1968 e “ de regresso a Paris, se encarrega da direção do Departamento de Filosofia da Universidade Paris VIII-Vincennes onde ensina e refelte a questão do poder. (ler : As palavras e as Coisas de Michel Foucault, 1966. 504p. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão de Michel Foucault. 370p. 1987. Notas do Editor) .
Era época de “costumes autoritários dos pais, patrões e políticos” que na visão de Foucault representava “o mundo das prisões” e dos “cães” que colocava a sociedade (´encostada´,´ parada´), “não na dimensão do espaço” mas “ a dimensão do poder”. (2. FOUCAULT, 1994, TII,p.402)

Dois anos depois, no começo de 1970, “ a fim de impedir que os alunos graduados possam ensinar nos colégios secundários, o ministro da Educação comunica sua intensão de não outorgar validade ao título de licenciado em Filosofia da Universidade de Vincennes (onde Foucault lecionava e dirigia o Departamento de Filosofia). Foucault concede uma entrevista sobre o tema com o título: “ A armadilha de Vincennes”, na qual se pergunta:
“Que tem a filosofia (a classe de filosofia) de tão precioso e tão frágil que é necessário protegê-la com tanto cuidado? Em Vincennes, somos tão perigosos? (Foucault, 1994 T.II p. 67)

Lá, bem adiante, depois de muitos anos, quem sabe, alguém conta essa história para confortar Juri Vips.

 

Porto, 22 junho de 2022

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