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Primeira 12 Horas

II 12 HORAS GUAPORÉ 1992.



Durante mais de três meses planejamos nossa estreia nas 12 Horas, eu o Pittini e o Bebi, Gilberto Madalosso na foto.


por: Paulo Torino


Eu havia comprado um Fusca 1968, e durante meses fui observando a sua construção na beira da BR 116, dentro de numa oficina em Canoas-RS.


Antes, depois de receber o apoio de duas alunas na Universidade, sendo uma delas hoje, a minha esposa Patrícia, e a amiga Jaqueline, que me abriu às portas para um patrocinador e primeiro parceiro, resolvi que seria piloto de corrida.


Tirei um empréstimo no Banco Real, e comprei aquele Fusca amarelo. Jaqueline já havia me apresentado o Pittini e na hora marcada, estacionamos o reboque em frente da sua oficina, no bairro São João, em Porto Alegre.


A Mecânica HP era uma oficina especializada Fiat cujo proprietário se chamava José Peccini. Até aquele momento, eu ainda não havia explicitado para ele, todo o meu plano e aguardei o momento do desembarque do carro para propor o que planejava...


Até aquele dia, nem ele nem eu, havíamos pilotado carros de corrida ou kart. Peccini, nasceu em Serrafina Correia, uma pequena cidade vizinha de Guaporé, e a Jaqueline achava que ele poderia se tornar o meu parceiro, além de patrocinador – era que imaginávamos...


Quando o Fusca começou a descer a rampa do reboque, no meio da rua, em frente à oficina, uma pequena multidão de curiosos já estava na volta do carro. Pittini, sem perder tempo, foi abrindo a tampa do motor. Olhou e deu um salto para trás, já com uma peça na mão. – “Mas o que é isso! NÃO PRESTA!" estava escrito com caneta preta sobre o distribuidor, disse olhando para a peça.


Sem entender o que estava acontecendo, empurramos rapidamente o carro para dentro da oficina. Lá dentro, outro espanto do italiano – “Olha esses pneus, cada um de uma marca e só três destas rodas prestam... Santo Cristo!”, repetia....


Olhei para a Jaqueline e pensei – estamos perdidos. E antes que ele descobrisse outro defeito naquele carro ela disparou. “Pittini esse é o carro que tu vai preparar e pilotar na Speed 1600”.


A categoria era a melhor e mais popular do automobilismo gaúcho naquela época. O campeonato de 92 estava em andamento, restava ainda três etapas, e mais de 40 Fuscas largavam em cada prova. O público lotava o autódromo e aplaudia de pé na curva do Tala os Fuscas em Tarumã.


Quando ele ouviu a proposta os seus olhos brilharam e sem perder tempo, chamou o chefe da oficina, abriu a porta do Fusca e sentou no banco do piloto. – ´Soel, vamos colocar esse carro na pista´, decretou e eu não falei mais nada.


Fomos juntos para a Escola de Pilotagem do Evaldo Quadrado. Um mês depois, estávamos com as carteiras de Piloto de Competição, nossa estreia foi em Tarumã.


Pittini (ao volante na foto), correu a segunda bateria, terminou a corrida e estava feliz como uma criança.


Na corrida de estreia não passei da primeira volta, depois de largar dos boxes, e perseguir mais de 40 carros, acabei parado no acostamento da curva 1, depois de rodar quando tentava fazer minha primeira ultrapassagem...


O Fusca saiu de Tarumã apelidado de Taxi – pois tinha a frente mais alta que a traseira, um horror e um perigo de pilotar.


O carro foi todo refeito, ajustado, decorado e então partimos para o grande desafio. Correr as 12 Horas de Guaporé, que naquele ano, seria disputada na serra pela segunda vez, Tarumã estava em obras.


Sexta-feira, 11 dezembro 1992.


Depois de um dia inteiro com todos da oficina trabalhando do Fusca, o carro estava ´quase pronto´. Às três da tarde, Pittini disse que iria sair é já voltava. Uma hora depois, ele retornou e estacionou um FIAT TEMPRA (zero km) dentro da garagem. – “Comprei para puxarmos o carro até Guaporé”, disse sorrindo. Não demorou e o Fusca já estava sobre a carreta e engatado na traseira do Tempra.


Cinco da tarde...


Depois de ligar para a Patrícia, que iria de ônibus para Guaporé no sábado, pois ainda tinha um exame para fazer na Universidade, sentei no banco de trás e partimos.


Na frente, ao volante, Pittini e Soel, o mecânico chefe da oficina. O Tempra ia carregado. Além do Fusca e do enorme reboque, colocaram todas as ferramentas da oficina no porta malas. Um motor reserva e uma caixa de câmbio estavam amarrados sobre o reboque e ainda havia dois galões cheios de gasolina atrás do banco do piloto.


Um pouco antes de chegar no aeroporto Salgado Filho, já andando sobre a BR 116, bem embaixo do viaduto da ponte do Guaíba, Pittini resolveu fazer um zig-zag, para ´testar´ a estabilidade do Tempra, antes de seguir viagem... O carro virou a frente para a direita, chicoteou para a esquerda, e eu vi o Fusca na minha janela. O reboque se desprendeu do carro, e bateu com força na traseira do Tempra, antes de mergulhar no barranco em frente à pista de pouso do aeroporto.


Assustado, Pittini parou o carro no acostamento e saltamos para fora, todos, felizmente, sem ferimentos. Olhamos para trás e vimos o FUSCA deitado de lado, sobre a grama, ainda preso no reboque. Vimos que havia capotado pelo menos uma vez, já que o teto do carro estava amassado..


Ficamos ali parados durante mais de meia hora, até que chegou o socorro. Pittini havia ligado para o filho do Catharino Andreatta, Vitório, que era proprietário de uma empresa de socorro mecânico ali perto. Quando vi, era o próprio Vitório Andreatta que chegava guiando o caminhão guincho para nos salvar. – “Não se preocupem, vou tirar esse carro daí e vocês vão seguir viagem para Guaporé”, garantiu.


Nesse meio tempo, enquanto fazia a resgate, Patrícia, que estava indo fazer o seu último exame na UNISINOS, viu a cena de dentro do ônibus da empresa Central e pediu para o motorista parar – “conheço eles, pare por favor”, disse muito assustada...


Com o carro resgatado, resolvemos voltar para a oficina, para verificar os danos do acidente. Vitório ainda levou a Patrícia até a estação do Metro, em Canoas, antes de voltar para Porto Alegre com o carro de corrida no reboque.


Depois de muita martelada e pincéis de tinta, o Fusca estava recuperado e então partimos, desta vez com mais calma para Guaporé e o relógio já se aproximava da meia-noite, quando iniciamos à subida da serra.


Sábado, 12 de dezembro 1992.


Aqui estamos! Acordei cedo, depois de dormir dentro do box, não me lembro aonde, vestido de piloto. O café da manhã foi um pedaço do mamão, que minha mãe havia preparado como lanche para a viagem do dia anterior...


A meia noite, José Peccini, fez a largada. Eu e piloto Gilberto Madalosso, que formou o trio da corrida, assistimos da mureta dos boxes. Uma volta depois, um novo drama, o motor do Fusca explodiu e Piccini chegava aos boxes rebocado...


Troca do motor, longa parada. Pilotei o carro pela primeira vez durante a madrugada, sem nunca antes ter dado uma volta na pista, e sem referências andava perdido na escuridão sem saber onde era a próxima curva. Resolvi parar, entregar o volante para o Bebi, só retornando a pilotar no amanhecer.







O Fusca resistiu, eu apreendi o traçado de Guaporé, e voltamos para casa felizes por ter terminado aquela histórica 12 Horas em 3ª lugar na Classe Speed 1600.

A corrida foi vencida pelo Opala #5 de Carlinhos Andrade/Victor Steyer/Paulo Bergamashi, seguido pelo Fusca #68 de Pierre Kleinubing/Márcio Pimentel/ Evaldo Quadrado, vencedores classe Speed 1600. Foi a primeira vitória do professor Quadrado em 12 Horas.


Depois disso, corri outras oito 12 Horas em Tarumã e venci cinco na categoria Turismo.

Que felicidade de ter conhecido José Peccini e o Gilberto Madalosso

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